“Será que o atual presidente da China quer se tornar o Mao Tsé Tung do século 21?”
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Marília Fiorillo comenta o episódio em que , no vigésimo Congresso do PCC chinês, o ex presidente Hu Jintao, que estava sentado ao lado do presidente Xi Jinping, foi removido e escoltado por seguranças para fora do recinto ler
“Na metodologia da Análise Crítica do Discurso (ACD), sabe-se que o não dito é mais revelador que o dito, ou escrito. Idem no que diz respeito à linguagem corporal, que muitas vezes diz mais que palavras. Foi o que aconteceu há alguns dias no vigésimo Congresso do PCC (Partido Comunista Chinês), um episódio que deixou todos intrigados. O encontro fortaleceu os poderes autocráticos do atual presidente Xi Jinping, nomeado para um terceiro mandato de cinco anos. Mas uma cena roubou a atenção do mundo inteiro, exceto dos chineses, que não puderam vê-la na mídia estatal. O ex presidente Hu Jintao, membro do Presidium, que estava sentado ao lado de Xi, foi abruptamente removido e escoltado por seguranças para fora do recinto. O vídeo, disponível na web, mostra a surpresa de Hu Jintao ao ser retirado da cadeira, segundos após confiscarem seu folder da mesa ( seriam objeções a Xi?). Ele ainda tenta , já de pé, dizer algo ao atual presidente e secretario geral, que não reage. Foi uma cena deliberada de humilhação publica que contrasta com a tradicional coreografia de discrição e sigilo da politica chinesa.
“Mais: a cena foi calculada para ser filmada exatamente no momento em que a mídia internacional era admitida no Congresso. Um recado para o mundo. Dissidências internas, disputas, expurgos e prisões dos discordantes foram e são recorrentes na historia do Partido Comunista chinês. Mas sempre eram urdidas e conduzidas nos bastidores, com opacidade, quando não em segredo. A remoção espalhafatosa do ex-presidente causou estranheza. A explicação oficial foi a má condição de saúde de Hu, que tem 79 anos. Como ninguém comprou essa versão, especula-se que foi uma mensagem para não deixar dúvidas de que Xi JinPing pretende se tornar o Mao Tsé Tung do século XXI, enfeixando todas as decisões, e todo poder, em suas exclusivas mãos. Se alguém tinha hesitações sobre a volta do totalitarismo ( o partido acima do Estado e o líder acima do Partido), elas foram dissipadas.
“O Mao Tsé Tung original utilizava terceiros em suas artimanhas para destruir os oponentes, como fez durante a Revolução Cultural, encarregando sua mulher e a camarilha dos 4 de incitar a juventude a colocar chapéus de burro em intelectuais e políticos suspeitos e espancá-los. Terceirizou o trabalho sujo, eliminou quem podia lhe fazer sombra (como Deng Xiao Ping, que chegou a ser preso) e em seguida condenou a mesma camarilha que agira a seu serviço. Com isso, manteve sua imagem intocável. O candidato a Mao do século 21, Xi JinPing, subverteu essa conduta.
“O que aconteceu com a impassível e inescrutável China em que tudo se fazia em ardiloso sigilo? Será que a segunda economia mundial e provável centro de gravitação do planeta, num futuro bem próximo, cedeu à tentação do modus operandi mais disseminado na politica contemporânea, a bravata? Os próximos passos do Mao Xi Ping dirão. Hu Jintao está desparecido.
Fonte: Jornal da USP
