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Cultura

Samson Flexor está de volta a São Paulo

O pintor russo que se dizia paulistano é homenageado na exposição do Museu de Arte Moderna com obras de 1922 a 1970 ler

27 de abril de 2022 - 10:00

Samson Flexor está na cidade com a emoção de suas cores expressas sob o rigor da razão. Sua arte, essencial para o abstracionismo brasileiro, pode ser apreciada na mostra Samson Flexor: Além do Moderno, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Com a curadoria da crítica de arte Kiki Mazzucchelli, a exposição reúne cerca de uma centena de obras produzidas entre os anos de 1922 a 1970. “O foco da mostra é o desenvolvimento da arte de Flexor a partir de 1957, quando passa a rejeitar as formas estáticas com pinturas onde gradualmente predominam o gesto, a opacidade e a transparência”, diz Kiki Mazzucchelli.

A curadora apresenta Samson Flexor (1907-1971) ao público em uma narrativa que reúne as imagens mais marcantes de suas diferentes fases. “Flexor nasceu no interior da atual Moldávia, então Império Russo. Iniciou sua carreira em Paris, para onde se transferiu em 1924”, explica. “Ele participou ativamente do contexto cultural parisiense, realizando inúmeras exposições e frequentando o ateliê de mestres como André Lhote, Fernand Léger e Henri Matisse. Até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, seguiu trabalhando assiduamente em encomendas de painéis de temática sacra e em inúmeros retratos que conciliam o notável domínio técnico e a intuição psicológica. Após a invasão de Paris pelos alemães, em 1940, foi duplamente perseguido, pela sua origem judaica e pela militância na Resistência.”

A história de Flexor recomeça em São Paulo. Outras paisagens, outras pessoas em cores e formas. “Realizou sua primeira exposição em São Paulo, em 1946, e nesse mesmo ano teve os primeiros contatos com críticos brasileiros como Sérgio Milliet, Luiz Martins e Lourival Gomes Machado”, conta Kiki. Transferiu-se definitivamente para São Paulo, em 1948, momento de dinamismo inédito no contexto artístico brasileiro, que contrastava drasticamente com a França devastada do pós-guerra.

“Flexor contribuiu para a formação de vários artistas.  A mostra Samson Flexor: Além do Moderno traz uma produção que teve grande visibilidade entre os anos de 1950 e 1970, mas que provavelmente as novas gerações conhecem pouco.”

“Samson Flexor é um artista fundamental para o desenvolvimento da arte abstrata no Brasil, principalmente quando abriu em sua casa, em São Paulo, o Atelier Abstração, na década de 1950”, comenta Cauê Alves, curador-chefe do MAM, mestre e doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Flexor contribuiu para a formação de vários artistas. A mostra Samson Flexor: Além do Moderno traz uma produção que teve grande visibilidade entre os anos de 1950 e 1970, mas que provavelmente as novas gerações conhecem pouco.”

Cauê destaca que a trajetória de Samson Flexor está entrelaçada com a história do Museu de Arte Moderna de São Paulo. “Além de ter participado da mostra inaugural do museu, em 1949, Do Figurativismo ao Abstracionismo, marcou presença em  várias outras. No início do Ateliê

Abstração, em 1951, estimulado pelo então diretor artístico do MAM, Léon Degand, o artista integrou a 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Participou também, entre os artistas brasileiros, da 2ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1953, uma das mais importantes de todos os tempos. Também marcou presença na terceira edição, em 1955, na quarta, em 1957, e na sexta, em 1961, todas realizadas pelo MAM de São Paulo.”

Cauê Alves lembra que o MAM, entre 1954 e 1956, realizou duas importantes exposições coletivas, articuladas por Flexor, com obras dos artistas do Ateliê Abstração. “Foi uma ação  fundamental para a consolidação da arte abstrata e geométrica no Brasil. Em 1961, Flexor apresentou uma exposição individual no MAM que contou com texto crítico de Mário Pedrosa. Participou também da primeira e da segunda edição da exposição Panorama da Arte Atual Brasileira, em 1969 e 1970, mostras emblemáticas para a relação do museu com a arte contemporânea.”

“Sua obra é completamente parte de sua vida, do mundo que viveu e de seu momento histórico, mas também pode ser compreendida a partir da vida de cada um de nós e do momento atual.”

O movimento da cidade de São Paulo que o pintor tanto apreciava está em Samson Flexor: Além do Moderno. Sua pintura, nos anos 1950, reflete, através da linguagem do Concretismo, o período de modernização, industrialização e crescimento urbano. Na época, o crítico de arte Sérgio Milliet analisou: “Para Flexor, a orientação decisiva a favor da abstração não decorre apenas de um processo intelectual, mas também da contemplação cotidiana do espetáculo que oferece o desenvolvimento frenético de São Paulo, onde tudo tende para o futuro e clama seu desprezo pelo passado colonial”.

Samson Flexor: Além do Moderno resgata o brio de sua trajetória.  “A seleção de trabalhos feita por Kiki Mazzucchelli permite aos visitantes uma experiência com um artista que nunca seguiu uma única linha e sempre soube se reinventar. Sua obra é completamente parte de sua vida, do mundo que viveu e de seu momento histórico, mas também pode ser compreendida a partir da vida de cada um de nós e do momento atual”, observa Cauê Alves.

Atualmente 12 obras de Samson Flexor pertencem à coleção do museu. “Além de um conjunto de oito desenhos dos anos 1940, doado por Erik Svedelius, o MAM possui trabalhos abstratos de 1957 e 1959, cedidos pela sua esposa, Margot Flexor, e a obra Parto, de 1969, doada pelo próprio artista”, ressalta Alves. “No acervo do MAM há ainda um retrato geometrizado de Carlo Tamagni, de 1951, que foi entregue pelo próprio Tamagni para a retomada das atividades do museu, em 1967.”

Depois da morte do artista, em 1971, o MAM também realizou uma exposição individual póstuma de Flexor, em 1975, na sede do Parque Ibirapuera.

A exposição Samson Flexor: Além do Moderno está em cartaz até 26 de junho, de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas (com a última entrada às 17h30), no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo (Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portões 1 e 3, Parque Ibirapuera, em São Paulo). Ingressos: R$ 25,00. Grátis aos domingos. É preciso agendar a visita no site www.mam.org.br/ingresso. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 5085-1300.

Fonte: Jornal da USP

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