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Mundo de fantasia da Disney é atacado por divisão política e feiura do mundo real

Novo contexto da sociedade e da indústria põe em risco uma das marcas mais conhecidas do planeta, que tenta se adaptar ler

26 de abril de 2022 - 10:00

Desde sua fundação, em 1923, a Walt Disney Company é uma empresa singular em Hollywood —seus filmes, programas de TV e parques temáticos criados para a família sempre foram, pelo menos em teoria, dirigidos a todo mundo, e a empresa sempre se esforçou zelosamente para evitar percalços políticos e culturais.

A marca Disney gira em torno de encontrar o amor verdadeiro, acreditar na magia das estrelas e acompanhar pessoas que vivem felizes para sempre. Caso os castelos de conto de fadas sejam uma referência sutil demais, os parques temáticos da Disney prometem explicitamente uma fuga da realidade, e suas placas de boas vinda dizem “aqui você deixa o hoje e entra no mundo do ontem, do amanhã e da fantasia”.

Entretanto, a feiura do mundo vem se infiltrando no mundo mágico da Disney. Ambos lados da divisão política vêm atacando a Disney, e colocam em perigo uma das marcas mais conhecidas do planeta, enquanto a companhia tenta se orientar em meio às rápidas mudanças que vêm acontecendo na indústria do entretenimento.

Teve situações em que a Disney se envolveu deliberadamente em questões culturais, atraindo atraindo aplausos dos progressistas e rosnados da extrema direita. Um exemplo foi os anúncios dos alto-falantes em seus parques temáticos terem gênero neutro.

Mas a gigante do entretenimento também se viu arrastada a disputas, como no caso da recente controvérsia sobre uma nova lei estadual da Flórida que, entre outras coisas, restringe as menções a orientação sexual e identidade de gênero que podem ser feitas nas salas de aula até a terceira série.

Primeiro, a Disney tentou não se posicionar quanto à legislação e seus funcionários se rebelaram. Depois disso, a companhia criticou agressivamente o projeto de lei, atraindo a ira da mídia Fox News e do governador da Flórida, Ron DeSantis. Como consequência, os legisladores da Flórida revogaram uma lei que permite que o Walt Disney World na prática funcione como se fosse um município autônomo.

“A missão da marca Disney sempre foi muito clara: fazer coisa alguma que possa incomodar ou confundir as audiências familiares”, diz Martin Kaplan, professor da cátedra Norman Lear de entretenimento, mídia e sociedade, na Universidade do Sul da Califórnia, e ex-executivo da Disney Studios.

“Diversão para todos. Nada contestável. Que todos possam ser transformados pela varinha mágica. Mas estamos tão divididos hoje, tão irritados, que até mesmo a Disney está enfrentando dificuldades para nos unir”.

Evitar tons socialmente divisivos é uma posição que reflete uma determinada visão de mundo, é claro. O fundador da Disney, afinal, era um conservador que se opunha à sindicalização. O patriotismo americano singelo tem lugar de destaque nos parques temáticos da Disney. A história natalina tradicional é contada todo dezembro no Walt Disney World, na Flórida, e na Disneyland, na Califórnia, com procissões iluminadas por velas, leitura de versículos bíblicos e tudo mais.

A empresa só retratou uma princesa negra em 2009. Robert Iger, o presidente do grupo entre 2005 e 2020, declarou em uma assembleia de acionistas da empresa em 2017, se referindo à inclusão e igualdade: “podemos tomar esses valores, que consideramos socialmente importantes, e mudar o comportamento das pessoas na prática —fazer com que elas aceitem mais as múltiplas diferenças, culturas, raças e todas as demais facetas de nossas vidas e de nossos povos”.

Em resumo, o entretenimento entrou na seara do ativismo. Na gestão Iger, a Disney reorientou a franquia “Star Wars” e a centrou em personagens femininos. Uma longa sequência de filmes de animação destacava uma ampla variedade de raças, culturas e etnias. O resultado foi um enorme sucesso. Mas uma fração da audiência da Disney resistiu a essas mudanças.

“Eternos”, um filme da Marvel que custou US$ 200 milhões, foi bombardeado por resenhas negativas porque mostrava um super-herói gay beijando o marido. “Trolls” de internet inundaram o site IMDb de resenhas homofóbicas dando ao filme a classificação de uma estrela.

Em janeiro, a Disney foi acusada de promover estereótipos, visto que pretendia substituir os anões do filme “Branca de Neve” por “criaturas mágicas” criadas digitalmente. Em 2019, no lançamento do serviço de streaming, a empresa realizou uma extensa revisão de seu acervo de filmes, acrescentando alertas quanto a conteúdos negativos, em uma clara política revisionista.

Por exemplo, Úrsula, a malévola feiticeira do mar de “A Pequena Sereia” (1989), sua paleta de cores escuras (pele cor de lavanda, pernas pretas) poderia ser interpretada por uma lente racial; ela também é um personagem “código queer”, com maneirismos inspirados em parte pelos de uma drag queen.

Disney pode estar desenvolvendo um filme da Úrsula

A fada Sininho também foi incluída na lista dos personagens que merecem cautela, porque ela se preocupa com a imagem de seu corpo e luta pela atenção de Peter Pan, de acordo com os executivos, enquanto o Capitão Gancho poderia expor a Disney a acusações de discriminação ou preconceito contra deficientes físicos, já que ele é o vilão.

Algumas pessoas na Disney tem alertado que tanta sensibilidade exceda o razoável, prejudicando a criatividade artística via o “filtro da correção política”.

Em um momento delicado, de reestruturação dos negócios, principalmente do streaming, que vem sofrendo com novos concorrentes, e também da transição na liderança empresarial, com a saída de Iger do comando.

Seu sucessor, Bob Chapek, decidiu, com apoio do conselho da empresa, que não interferiria nas batalhas políticas estaduais. Os lobistas da Disney continuariam a trabalhar nos bastidores, porém, como fizeram no caso do projeto de lei da Flórida.

“A diversidade de nossas histórias é nossa missão corporativa – e elas são mais poderosas do que qualquer tuíte ou esforço de lobby”, escreveu Chapek em um email aos empregados da Disney em 7 de março. “Acredito firmemente que nossa capacidade de contar essas histórias –e de tê-las recebidas por olhos, ouvidos e mentes abertas– seria diminuída se a empresa se evolvesse em qualquer debate político.”

No caso da Flórida, a abordagem não deu resultado, primeiro com os protestos, seguidos por uma paralisação de trabalhadores e mais tarde com a reação da direita política. Tucker Carlson, apresentador da Fox News, disse que a Disney “tinha uma agenda sexual para crianças de seis anos de idade” e que a empresa era “muito repulsiva”. Tuítes com a hashtag #boycottDisney foram veiculados milhões de vezes entre 28 de março e 3 de abril, de acordo com a ListenFirst, uma empresa de análise de audiência.

Os executivos da Disney há muito mantêm a posição de que boicotes têm impacto mínimo sobre os negócios da empresa, se algum. A Disney é tão imensa (seu faturamento anual é de US$ 70 bilhões) que evitar seus produtos é quase impossível.

Mas o mesmo alcance imenso que torna difícil boicotar a Disney também a coloca em posição cada vez mais visível nos debates culturais do país. Não passa um mês sem algum atrito, usualmente associado a questões de identidade sexual e gênero.

Na metade do ano passado, “Muppet Babies”, uma série da Disney Junior para crianças dos três aos oito anos, tratou, delicadamente, da identidade de gênero. Gonzo colocou um vestido, desafiando uma ordem de Miss Piggy de que as meninas deveriam ir vestidas de princesa e os meninos de cavaleiros.

A revista Out publicou um artigo no qual afirmava que o episódio “envia uma poderosa mensagem de amor e aceitação para as crianças variantes de gênero em toda parte”. E uma figura de mídia direitista atacou a Disney por “promover a agenda trans” junto às crianças, o que deu início a uma batalha na internet.

Mais ou menos na mesma época, ativistas da causa LGBTIA+ começaram a criticar a Disney por “Loki”, uma série de super-herói no serviço Disney+. No terceiro episódio da série, o personagem-título reconhece pela primeira vez, em um diálogo breve, o que os fãs de quadrinhos sabiam há muito tempo: que ele é bissexual.

Mas essa declaração feita de passagem enraiveceu alguns membros proeminentes da comunidade LGBTQIA+. “Ele disse uma palavra e só”. “É um gesto ridículo, covarde, fraco.”

As disputas sem dúvida continuarão. “Lightyear”, filme da Disney Pixar que deve sair em junho, mostra um casal lésbico amoroso, enquanto “Thor: Amor e Trovão”, que chega em julho, terá um importante personagem LGBTQIA+.

Em março, quando a Disney realizou sua mais recente assembleia, Chapek foi pressionado por acionistas de esquerda e de direita. Uma pessoa criticou a empresa por doar dinheiro para campanhas eleitorais de legisladores que defenderam medidas de restrição ao direito de voto e aos direitos reprodutivos

Chapek disse que a Disney doava dinheiro para “os dois lados do corredor” e que a empresa estava reavaliando suas regras quanto a doações políticas. Ele subsequentemente suspendeu todas as doações eleitorais da empresa na Flórida.

Outro representante de um grupo que defende direitos de acionistas foi ao microfone e apontou que “a Disney, desde sua criação, sempre representou um porto seguro para as crianças”, mas em seguida ele mudou de direção e começou a fazer comentários homofóbicos e transfóbicos, e apelou a Chapek para que este abandonasse “a politização e a ideologia de gênero”.

Em resposta, Chapek apontou para as preocupações contrastantes dos acionistas. “Creio que todos os participantes da assembleia de hoje podem ver como é difícil encontrar o meio do caminho, diante da extrema polarização de pontos de vista políticos”.

“O que queremos que a Disney seja é um lugar no qual as pessoas possam se unir”, ele prosseguiu. “Minha opinião é que, quando alguém caminha pela Main Street e chega ao portão de nossos parques, deixa as diferenças de lado e contempla aquilo que temos como crenças compartilhadas –uma crença compartilhada na magia, esperança, drama e imaginação da Disney.”

Fonte: THE NEW YORK TIMES/Folha de São Paulo

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