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Cultura

Exposição com curadoria de Lilia Schwarcz propõe reflexão sobre a arte

Mostra 'Vários 22' traz negros falando de negros e indígenas falando de indígenas, ao invés da visão dos brancos ler

08 de abril de 2022 - 13:00

Qualquer um que se interesse pela história da arte brasileira ou que tenha visitado alguma exposição de arte nos últimos meses já está situado sobre a celebração do centenário da Semana de Arte Moderna. Aquela que aconteceu em fevereiro de 1922, e propunha uma nova estética artística e social. A ideia era romper com o academicismo e o tradicionalismo, trazendo novos nomes para o mundo das artes com obras de temas nacionalistas e cotidianos.

Cem anos depois, a curadora de arte Lilia Schwarcz pretende fazer o mesmo, porém de maneira muito mais atual. “A branquitude, em geral, não fala de si, porque a branquitude é a norma; então fala só dos outros. Mas os outros são os seus outros, suas projeções, suas fantasias e medos e não a realidade que pretendem retratar. São coleções, portanto, que primam por representar o ‘outro’, mas não exatamente incluí-lo”, explica ela. Assim, até o dia 21 de maio, a mostra Vários 22, na galeria Arte132, pretende propor um diálogo entre tipos de artes, artistas e galerias e maneiras de retratar.

Logo ao entrar no simpático portão laranja da Avenida Juriti, em Moema, percebemos esse tom político da exposição, com o quadro Identidades de Larissa de Souza. Nele, uma mulher negra com roupas delicadas em tons pastéis encara o observador. “Esse é um retrato do respeito e da autoafirmação negros, em tudo oposto a imagem esteriotipada criada pela própria sociedade branca”, explica Lilia.

E assim seguimos a cada passo do espaço que, apesar de pequeno, conta com 80 trabalhos de dez galerias e artistas independentes – além da coleção de a coleção de Telmo Porto, diretor da Galeria Arte 132 -, cada qual dialogando uma com a outra, independente da sua forma e sua identidade cânone ou não. Se trazem obras de ‘outros’ feitas por brancos, também dão espaço para cada um representar a si mesmo: mulheres, indígenas e negros. “O objetivo de vário foi, então, retirar tais obras da transparência confortável em que se encontram e contrastá-las com artistas contemporâneos que iluminam ambiguidades que permanecem imanentes nesses trabalhos e assim, de certa maneira, naturalizadas”, conta Lilia.

Dois artistas bem emblemáticos que falam exatamente sobre isso são Glauco Rodrigues e Gê Viana. Enquanto o primeiro usa cores fluorescentes e vibrantes para revisitar a história do Brasil com um tom carnavalesco – carregando humor e crítica social em assuntos vinculados à história nacional; Gê Viana faz uma releitura das obras de Jean-Baptiste Debret em sua série “Atualizações traumáticas de Debret”. Na obra Jantar brasileiro, por exemplo, ao invés da cena colonial dominada por pessoas brancas, a cena é colocada com negros como protagonistas, os quais carregam ipads e sandálias estilosas.

O mesmo acontece com os indígenas nas obras de Denilson Baniwa que faz uma provocação nas gravuras coloniais introduzindo pinturas de guerra e de etnia, além de escarificações (cicatrizes para fins decorativos) sobre os desenhos do naturalista Johann Moritz Rugendas.

DETALHES

É importante que o visitante reserve um tempo para passear pela galeria. O olhar deve ficar atento à percepção de detalhes históricos, sociais e até mesmo contemplativos que a exposição traz – algo já esperado de uma mente como a de Lilia. No segundo andar, escondido, é possível observar uma obra de Di Cavalcanti, na intenção de mostrar que mesmo alguém com um nome forte deve ceder espaço aos novos. E assim, como aconteceu em 1922, abrir espaço para o novo e permitir o diálogo. “Essa também é uma forma de a gente ver a Semana do 22, que foi uma semana em São Paulo, e não de São Paulo. Se não fossem os outros não existiria a semana”, reflete Lilia.

Justamente por esse diálogo, é essencial que se observe a obra sozinha e, em seguida, reflita como ela dialoga com a obra à sua frente, ao seu lado, e assim por diante. Da escada, por exemplo, vemos um grande índio de Flávio Cerqueira com havaianas e estilingue no bolso em contraste com o bandeirante em miniatura de Jaime Lauriano, feito com cartuchos de munição utilizados pela Polícia Militar e Forças Armadas Brasileiras. “Faz você pensar em quem está demolindo quem aqui”, diz ela.

Serviço

‘Vários 22’

Arte132 – Av. Juriti, 132, Moema, São Paulo

Até 21 de maio; De seg. a sex., das 14h às 19h. Sáb., das 11h às 17h

Entrada gratuita

www.arte132.com.br

Fonte: O Estado de São Paulo

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