Abdulrazak Gurnah, Nobel de literatura, diz que Ucrânia sofre um imperialismo cruel
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Referência no pensamento anticolonial, tanzaniano tem em 'Sobrevidas' seu primeiro livro publicado no Brasil ler
“À medida que eu aprendi a ler com compreensão mais ampla, cresceu em mim o desejo de escrever em recusa às simplificações cheias de certezas das pessoas que nos desprezavam e diminuíam”, discursou o tanzaniano Abdulrazak Gurnah ao aceitar o prêmio Nobel de literatura em dezembro do ano passado.
A maneira como o autor descreve sua decisão de se opor à perspectiva dominante sobre a África pode muito bem ser a definição dicionarizada de narrativa decolonial.
“Algo perturbador ficou claro para mim, que uma nova história estava sendo construída, transformando e obliterando o que havia acontecido. Essa história era o trabalho inevitável dos vitoriosos, mas também era adequada a analistas e acadêmicos que não tinham interesse real em nós e se tornou necessário rejeitar essa história.”
Foi a partir disso que se construiu o projeto literário deste escritor de 73 anos, que se mudou para o Reino Unido como refugiado em 1968 por perseguição aos árabes em sua terra natal —um artista tão singular a ponto de conquistar a distinção mais alta da literatura mundial, a quarta pessoa negra premiada na história.
“Você não responde a uma história falsa com outra história falsa”, afirma Gurnah, um homem grisalho de voz suave e pesadas bolsas sob os olhos, em entrevista a este jornal. “Se a história oficial é um exagero, você não responde com outra distorção. Talvez o seu resultado seja menos retumbante, soe menos como uma declaração de palanque, mas se você aponta as imprecisões naquela história, mostra que há outra maneira de olhar.”
“Eu vejo isso como ativismo, não como quietude”, continua. “Escrever da maneira mais verdadeira sobre a condição dos colonizados não exige declarações em volume alto, anúncios polêmicos. Talvez, se você fizer isso, sua voz seja ouvida melhor em meio à multidão, mas não me parece a coisa mais valiosa que um escritor pode fazer.”
Dessa forma, “Sobrevidas” mistura narrativas mais familiares —Hamza, o adolescente da África Oriental que se vê vitimado pela insanidade de uma guerra europeia que tem palco na sua terra— e outras mais inesperadas —Ilyas, o jovem que se voluntaria nessa mesma guerra para lutar ao lado dos alemães que colonizam seu povo.
Numa cena, Ilyas sai em defesa dos colonizadores afirmando que estavam “combatendo um inimigo que foi tão selvagem quanto eles”. “Eles tiveram de revidar com severidade porque é só assim que os selvagens conseguem entender ordem e obediência. Os alemães são um povo honrado e civilizado e fizeram muita coisa boa desde que chegaram aqui”, diz o jovem africano.
“Ilyas representa muitas pessoas que abraçaram as autoridades coloniais”, comenta seu autor. “E você pensa ‘por que alguém faria isso, lutar contra outros africanos?’. A resposta está, entre outras coisas, no prestígio econômico e de poder que isso conferia. Você quer se aliar aos vencedores.”
Fonte: Folha de São Paulo
